Olá meus caros leitores,
Venho hoje escrever-vos para que comente o actual ponto de situação deste nosso país. Penso que todos concordamos que a situação não é nada boa, em especial para a classe média e baixa.
Cada vez mais se vêem indivíduos da classe média a passar para a baixa, e cada vez mais se alarga o fosso entre esta última e os ricos.
O problema na realidade, e que ninguém parece saber (nem eu na íntegra para ser honesto, mas tenho uma pequena ideia) é como chegamos a esta situação em que temos uma dívida externa imensa…dívida essa que parece não ter fim nem solução à vista.
Com a dívida pública a chegar a 86% do PIB (segundo previsões da OCDE) penso que chegámos a um ponto deveras preocupante e que deve, pelo menos, ser tentado explicar, coisa que nenhuma das televisões ou jornais tenta fazer… À falta de melhor vou eu tentar fazer esse esforço convosco:
1- Criação de dinheiro: Muito lamentavelmente ninguém parece ter a certeza de onde realmente vem o dinheiro que actualmente controla a nossa sociedade, e tal parece não ser ensinado em escola nenhuma, nem sequer com tantas campanhas para a educação que o nosso governo promove (i.e. novas oportunidades)… Irónico não é?
Ora muitos de vós estarão provavelmente a pensar naquela imagem que nos é constantemente demonstrada nas televisões da máquinas a fazer dinheiro e pensa que é o governo a criar o dinheiro e pronto… Não é bem assim.
Sendo nós pertencentes à União Europeia, estamos também dependentes do Banco Central Europeu (para os que não sabem o BCE é uma instituição privada, sobre a qual a UE não tem qualquer tipo de jurisdição ou controle, o que se passa é que dão um nome pomposo à mesma e prometem preocuparem-se com o povo, para que nós acreditemos). E o que acontece quando o nosso estado necessita de dinheiro, é que este dirige-se ao BCE e pede-lhe dinheiro, digamos 10 milhões de euros. O BCE, para o fazer, pede em troca ao nosso governo Obrigações do Tesouro de valor equivalente ao pedido, e faz com que este assuma o compromisso de pagar o dinheiro emprestado com juros. Só então o BCE põe as suas impressoras a funcionar e empresta 10 milhões a Portugal.
Assim que o nosso governo deposita o dinheiro numa conta bancária, este torna-se dinheiro corrente, e assim se adicionam 10 milhões de euros à economia portuguesa.
Por outras palavras, o governo contraiu um empréstimo com o BCE sobre algo que este criou do nada… E assim se cria dinheiro através de dívida.
2- O milagre da multiplicação: Actualmente existe uma coisa através da qual todos os bancos funcionam para emprestar o seu dinheiro que dá pelo nome de Reserva Fraccionaria.
A maneira de como esta reserva fraccionaria funciona é simples: o banco apenas é obrigado, por lei, a deter em cofre uma pequena percentagem daquela que empresta, que normalmente ronda os 10%.
O que os bancos fazem de prática corrente é que estes retiram 10% ao valor em depósito, que é a fracção que necessitam por lei, e emprestam o restante. Mas o problema é que o restante não é subtraído ao valor em depósito no banco, mas sim adicionado à economia, como que por magia…
Pegando no exemplo estatal acima mencionado dos 10 milhões de euros:
Após o estado depositar 10 milhões no banco, este conta como dinheiro em caixa (depósito). Portanto as contas que o banco faz são as seguintes: 10 milhões – 10% = 9 milhões e este é o valor que o banco tem disponível para empréstimo.
A seguir chega um novo cliente que quer pedir emprestados esses 9 milhões. Como o banco assina um contracto com este para emprestar os 9 milhões, em como ele o vai voltar a pagar, esse dinheiro não só é emprestado ao cliente como é considerado imediatamente em caixa pois o cliente prometeu pagar. Portanto o que acontece é que em vez de se subtraírem 9 milhões aos 10 em depósito, na realidade o dinheiro em depósito mantém-se e adicionam-se 9 milhões à conta do novo cliente. Perfazendo portanto 19 milhões, em circulação na economia.
Este processo pode, em teoria, repetir-se até à infinidade diminuindo-se sempre 10%. Ou seja, se o novo cliente depositou noutro banco o dinheiro emprestado (isto apenas para efeitos exemplificativos; funciona da mesma maneira se o depósito fosse feito no mesmo banco), o banco seguinte (B), tem 9 milhões em caixa. Ao retirarem-se os 10%, fica com 8,1 milhões para novo empréstimo, que quando é feito adiciona esse valor ao dinheiro em circulação, perfazendo 27,1 milhões na economia… e assim sucessivamente:
Ciclo de empréstimo/criação de dinheiro
Dinheiro em Caixa Total Dinheiro Economia
10.000.000,00 10.000.000,00
9.000.000,00 19.000.000,00
8.100.000,00 27.100.000,00
7.290.000,00 34.390.000,00
… …
Fazendo as contas: podem ser criados 90 milhões de euros dos iniciais 10 milhões de empréstimo ao estado. O que quer também dizer que são criados 90 milhões de euros do nada para serem emprestados entre bancos e aos seus clientes, que ainda por cima pedem juros sobre ele.
Resumindo: todo o dinheiro existe porque existe uma dívida para com alguém (algum banco normalmente), divida essa que está constantemente a crescer.
Voltando ao tópico inicial, a actual situação económica do país e dívida, e seguindo a linha de pensamento: todo o dinheiro existente na nossa economia provém de dívida, e esta só existe porque o dinheiro existe. Pode, portanto, dizer-se que se toda a dívida fosse saldada teríamos de voltar a negociar com ouro, pois já não existiria dinheiro na economia…
3- O golpe final: No entanto há algo que não mencionei anteriormente, e que é a golpada final do sistema económico, que prova o quão fraudulento e insustentável este é… e dá pelo nome de JUROS.
Se todo o dinheiro que actualmente existe na sociedade é gerado através de dívida, e se todo este fosse restaurado para pagar dívidas, ele simplesmente deixaria de existir… Onde raio é que está o dinheiro para pagar os juros?
Esse dinheiro simplesmente NÃO EXISTE.
É por essa razão que se continua indefinidamente a injectar dinheiro na economia, para que haja alguma maneira de pagar os juros, mas o que é facto é que a dívida continua a existir. E por cada injecção que se faz aumenta-se a inflação, ou seja, desvaloriza-se o dinheiro já existente o que causa um aumento dos preços na sociedade. Fazendo assim, com que as pessoas percam o poder de compra do dinheiro que actualmente detêm.
Chega-se portanto à conclusão de que ao gerar mais dinheiro, há mais inflação, que só por si é um problema, mas para resolver este problema gera-se mais dinheiro para a economia, o que por sua vez gera mais inflação… Pois.
É desta maneira que se cria uma escravidão perpétua, em que as pessoas têm que trabalhar indefinidamente para pagar dívidas e juros sobre dinheiro criado “magicamente” pelos bancos, que engordam os seus lucros, enquanto as pessoas emagrecem cada vez mais os seus gastos e estilos de vida.
“Na escravidão física, é requerido que as pessoas tenham direito a casa e comida, por mais precária que seja… Na escravidão monetária, as pessoas têm que se alimentar e arranjar alojamento por sua conta.” – Peter Joseph, autor do filme Zeitgeist
Depois de todo este exercício mental o leitor pode compreender que o aumento de impostos nunca vai levar a lado nenhum. Pois a dívida continua por pagar (caso contrário não haveria dinheiro) com o agravamento dos juros. E o que se passa na actualidade é uma transferência literal de dinheiro de toda a classe trabalhadora (os pobres) para a classe bancária (os ricos), transferência essa que não tem fim à vista pois a injecção de dinheiro na sociedade é cíclica e cria apenas mais dívida e mais juros por pagar.
Ultimamente tem-se ouvido muito nas notícias que “a China comprou dívida portuguesa”, ou “BCE compra dívida portuguesa“, o que se passa é que Portugal está a contrair mais empréstimos e mais juros, para pagar os já existentes, e não é preciso ser nenhum economista para dizer que que tal não pode funcionar para sempre…
Outra coisa que se tem visto, têm sido as medidas de austeridade do governo, em que não só se aumentam os impostos, como se diminuem os ordenados, fazendo uma espécie de ataque duplo à economia portuguesa. Uma pessoa que vos pode dizer com toda a certeza que a actual política não funciona é o historiador Carlo Cipolla. Este estudou vários sistemas económicos da antiguidade, em que em todos eles foram aplicados as mesmas medidas de austeridade, e sem surpresa nenhuma, todos fracassaram. A história, portanto, diz-nos que o que está actualmente a acontecer é uma sentença de morte para o actual sistema económico.
Logo, das duas uma: ou se cria um sistema mais coerente, estável e lógico, ou se mudam as regras do actual.
E desenganem-se aqueles que acreditam que com o aumento de impostos se estimula a economia, muito pelo contrário. Ora façamos mais um esforço mental:
Imaginemos que o governo, em vez de aumentar os impostos, os baixava. Ora as pessoas teriam mais poder económico, e portanto conseguiriam consumir mais. Ao haver mais consumo, haveria com toda a certeza mais pagamento de impostos.
Com impostos mais baixos, abriam-se também mais portas a que as empresas se mantivessem no nosso país, e outras para cá viessem, criando mais postos de trabalho, logo mais pessoas com poder económico, logo mais consumo, logo mais impostos pagos. Já para não falar que numa economia mais estável haveria menos evasão aos impostos, pois muita da que acontece actualmente deve-se a necessidade do dinheiro para outras coisas.
Agora digam-me uma coisa, ainda acham que é mesmo necessário os cortes nos ordenados e aumento de impostos?
E se vos dissesse que há muito no governo por onde cortar em despesas sem se prejudicar o povo como actualmente se faz? Se vos disser que o governo de Sócrates é o que mais gastou em deslocações de comitivas ao estrangeiro, jantares, festas, etc? Se vos disser que em cenário de plena recessão económica não registou um corte nas despesas do estado, mas sim uma desaceleração do crescimento da despesa estatal (por outras palavras, continua a aumentar? E se vos falasse dos gastos do estado em publicidade, que este recusa em publicar? E que tal os gastos com viaturas? Se continuar assim, fico o resto da noite a descobrir gastos supérfluos do estado….
Criei todo este texto, e gastei todas estas horas para escrever e procurar documentação para vos mostrar a realidade das coisas … Para que as pessoas possam começar a perceber o porquê da actual situação e possam começar a pensar por si mesmas, ao contrário de aceitarem toda a informação que vem dos media e continuarem na ignorância…
Para mais informação e elucidação, aconselho vivamente que vejam os seguintes documentários e documentos:
-https://verdadedamentira.wordpress.com/2010/05/25/zeitgeist-addendum/
-https://verdadedamentira.wordpress.com/dinheiro/
-http://www.rayservers.com/images/ModernMoneyMechanics.pdf
-http://www.carloscoelho.eu/dossiers/euro/ver.asp?submenu=20&pf=180
-http://citadino.blogspot.com/2007/04/reserva-federal-americana-e-banco.html
